segunda-feira, 11 de maio de 2009

SÓ ME FALTOU TOCAR ADUFE.

- Preparado para o dia, tudo perfeito!

Com os primeiros movimentos dos sacos de plástico, som tão característico nos albergues a caminho de Santiago, acordei.
Seriam aí umas sete horas. - Olha que hora tão boa, para preparar tudo com uma grande calma e descontracção. Montar a bike, colocar os apêndices, arrumar as coisas no saco, e deixar os apetrechos alinhavados para o banho no final da jornada.

- Tudo perfeito, preparado para o dia!

Como já tinha levantado o dorsal de véspera, não precisava de ir ao restaurante “O Espanhol”, onde também se podia tomar o pequeno-almoço, mas que, por experiência própria calculava estar numa valente confusão. Pela parca movimentação do dia anterior supus que 90% do “Pessoal” viria no sábado, com o raiar do sol.
Como nestas coisas acredito bastante no que nos está escancarado à frente dos olhos, olhei, e “esbarrei” com um café/restaurante, de seu nome: - “O Corredor” (nem mais). Ali mesmo em frente ao pavilhão. Foi por lá que tomei o p.a., e onde travei conhecimento com um ciclista, contemporâneo de Alves Barbosa e que participou pelo menos em dez voltas a Portugal alinhando pelo Alpiarça. Fiquei a saber que na sua melhor, tirou um 12º lugar. – Foi um prazer, Sr. Manuel.
Depois do repasto e dos cremes, para o sol e para os músculos, seria prudente fazer um pequeno aquecimento, e uns, não menos importantes alongamentos. Tinha tempo, assim fiz, mais ou menos 20 minutos de progressão velocipédica em ritmo moderado e os dez últimos minutos guardados para a abordagem ao local de partida, que imaginava confuso.
Não era só imaginação, quando por lá “desagúei” já reinava o alvoroço destes momentos (o habitual para os conhecedores).
“Palavra puxa passou-bem”, cara conhecida ali e aqui, entre eles o José Manuel Costa Santos.
Estávamos todos preparados para a partida.

Essa, que previamente sabíamos controlada até à saída da vila e “guiada” pelo presidente da câmara, provocou um brutal engarrafamento ao desenvolver-se por entre as ruas sinuosas e pitorescas da povoação, até chegarmos à famosa calçada Romana.
Esta via, agora restaurada dá jus ao nome de calçada, pela sua inclinação. Aqui todo o cuidado era pouco. Por aqui começou desde logo a vislumbrar-se a sensatez da organização, ao não testar a vontade dos mais afoitos, que se não tivessem um carro de controlo à frente, provavelmente teriam causados alguns acidentes.

Depois disso. –Pum! Estava dada a partida de forma oficial e real. - Toca a pedalar.

Paisagens belíssimas, prados e arvoredo, coisa ligeira até certo ponto. A gana de andar, e as “ganas” de passar os “nuestros hermanos” também não ajudavam a levantar muito a cabeça… lol.
Era para pedalar, o que a cabeça ainda fria e o coração sempre quente conseguiam coordenar. No fundo, e como acontece sempre nas maratonas, ir defendendo posições e formando ou rompendo grupos.
Foi assim até ao quilómetro 25/30, a partir daí, e porque os “bons” já lá iam, fui ficando só, ou em pequenos grupos de ritmo equivalente ao meu, em que se trocavam sempre breves palavras de incentivo.
De repente, e seguindo em bom ritmo, estávamos em Zebreira, na primeira zona de abastecimento. Aqui faço a primeira referência à organização: - GNR; Bombeiros; Voluntários, etc, etc. Toda a gente simpática e extremamente prestável.
Rapidamente chegámos ao controle em Segura, malta expedita e célere, e vai de roda. Siga para a raia, bem juntinho ao que muito provavelmente usarei para fazer o “nosso” Transportugal, ao qual chamámos “A Raia Graúda”. Belos single tracks e trilhos pela encosta do lado Português, nas franjas do Rio Erges, outrora lugar de passagens a salto para, e de, Espanha. Vida difícil, a dos “contrabandistas”.
Este curso de água que demarca a linha divisória entre países, é tão “lindo” com selvagem, tal qual o vemos nas fotos penduradas em restaurantes, pertença das gentes originárias de tais terras, belas mas rudes.

Apesar da aparência, a chuva não se mostrava e o pó não assentava. Nestes trilhos bem técnicos, em que de lés a lés tínhamos que passar com o veiculo à mão, recordo uma fotografia que pela azafama e aglomerado de ciclistas atrás de mim, acabei por não tirar.

De Salvaterra do extremo, aldeia fronteiriça, em que me “embriaguei de Red bull, recordo a alegria e perseverança das populações, que sentadas nos degraus das portas das casas, aplaudiam e comentavam a nossa passagem. Uns diziam: - São bravos! Outros sussurravam: - São loucos…

Espanha a dentro. Grande vontade. Zarza la Mayor, outro abastecimento, este muito importante, porque definia o meio do percurso, até aqui duro, mas que no regresso a Idanha, ainda seria menos mole. – Confesso que dos contactos com o Carlos Magro, esta foi uma das poucas dicas que lhe consegui “sacar”… lol… - Parabéns!

Estávamos com pouco mais de 50 km´s percorridos e o “bem-bom” ainda aí vinha.

Gostei bastante da forma achada (meio improvisada) para transpor, por via de umas rampas, um muro de pedra que dividia duas parcelas de terreno. Mais ou menos por lá, estava também a placa indicadora dos 60 km´s.
Até toulões, e por me sentir muito bem fisicamente, fui progredindo em ritmo vivo para tentar fazer a melhor performance possível. - A seguir é que são (foram) elas. Lá para os 80/85 km´s, antes de Alcafozes (zona de abastecimento 5), comecei a sentir algum cansaço muscular, certamente derivado do acumulado e dureza da prova.
Com a aldeia à vista, logo decidi fazer uma pequena pausa para, além de abastecer com as inevitáveis barras de cereais, a as imprescindíveis laranjas e bananas, esticar um pouco as pernas e, de uma forma cuidadosa, esticar os músculos das pernas para evitar a todo o custo as arreliantes (pouco frequentes) cãibras.
Assim o pensei, melhor o fiz. Ainda para mais com os avisos consecutivos e insistentes de um comissário, que de viva voz alertava: - Hidratem bem, porque ainda faltam vinte quilómetros e têm duas subidas muito duras. – Como, quando temos um pé atrás vamos mais cautelosos, assim fui. Passei a dosear o esforço, economizando as minhas parcas capacidades para chegar honradamente ao final.

Com o cansaço e o aproximar da chuva, desvaneceu-se a minha ideia (esta sim, romântica), de tomar um banho na albufeira da Barragem de Idanha. Tirei umas fotos e, - vamos a eles! Neste caso a elas… As subidas.
Cruzei o paredão de sustentação do volume de água, imponente maciço de betão, que para simbolizar determinado período marcante da história do “nosso” séc. XX, tem um enorme escudo de Portugal ao centro. Iniciámos a descida até ao leito do rio, para voltar a subir a valente encosta, esta sim, íngreme passagem até às fraldas da alta vila de IDANHA-A-NOVA.

Daqui, e até à meta, a inevitável calçada Romana. – Nunca pensei, depois de a descer, que tivesse força para a subir.
Chegado ao controlo final, iniciei uma troca de palavras com os comissários, a quem dei os parabéns e com os quais troquei algumas informações, encomendando inclusivamente um Jersey da prova.
Seguiram-se o banho e o almoço. Na fila para o repasto encontrei o Ricardo Figueiredo, com ele estive à conversa por breves instantes. Falámos das incidências do dia, e dos assuntos que tínhamos em aberto. Almoço: - O belo do porco no espeto.
Para ser franco, o almoço apesar de não ser mau, dou-lhe 4 *, foi superado por tudo o resto, a volta, as paisagens, a organização e… O CONVIVIO.

Assisti à entrega dos prémios e fui-me deliciar com as belas vistas desta terra, que do alto do seu Castelo em ruínas, se deixam vislumbrar. Belas planícies que se estendem até Espanha, salpicadas aqui e ali por respeitosas elevações montanhosas.
Livrei-me por pouco de uma valente chuvada que, a toque de trovão chegou a Idanha.

- Só me faltou tocar Adufe! – Até fui “agraciado” com um par de luvas da Bicigal… - LINDO!

P.S. – Acabei de ver a classificação e… Surpresa! Para quem julgava ter ficado entre o 150º e 200º posicionados, um 113º lugar, é um brilharete!

- Cheguei, acabei, e, estou vivo (ainda para mais)…LOL

Rios foram muitos, mas já lá estava alguém para os Guardar.

3 comentários:

jabas disse...

eu vou comer, comer, comer, laranjas e bananas... andas a ver mto Panda vai à escola.
Parabéns, por mais uma bela reportagem e especialmente pelo passeio.

João Vaitu63 disse...

Fico contente pelas minhas palavras de incentivo de "empenado" terem sido bem sucedidas, já que a maior parte do pessoal que passava em Alcafozes, já só pensava em seguir viagem até Idanha sem se alimentar. Parabéns pelo lugar conseguido que é sem dúvida brilhante mas, gratificante é sem dúvida a vossa análise da prova, nada nos gratifica mais que a sensação do "dever" cumprido, com algumas falhas como é natural, até porque não somos profissionais, mas apenas amantes e modestos aprendizes desta modalidade que cada vez cativa mais gente no nosso país.

João Galvão e Ricardo Rosa disse...

Caro Amigo João Vaitu63, foram sem dúvida bastante prudentes as tuas palavras de contenção de ânimos, em tal fase da prova. É que muitas vezes o "People" não dimensiona bem as dificuldades, e mais que isso, não conhece o seu corpo o suficiente. Como te tinha dito na altura em que me abordaste no "teu" abastecimento, já tinha intenção de por lá fazer um break para evitar as cãibras que vi em alguns. Toda o cuidado e informação é pouco no que toca à divulgação de tais maleitas assim como a forma como as prevenir e/ou evitar. Tentamos faze-lo por aqui...
Mais uma vez Obrigado a ti, e a toda a organização. Vemo-nos breve.