quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Às voltas p'lo Sul (Travessia do Sul)... Ou... À procura de Maddie...


Dias 28, 29 e 30 de Janeiro de 2010.

Aproveitando o fio condutor traçado pela “Travessia do Sul”, do BTTista Froids; Fui descendo, um pouco à deriva, originando este: - Às voltas p’lo Sul. De que agora vos falo.

Tendo como intuito inicial, percorrer todo o track que me era proposto, fui, a dado momento, levado a alterar um pouco o itinerário. Primeiro por impedimento do traçado, já que nesta estação do ano, à qual devemos somar os muitos metros cúbicos de água que caíram do céu, foi-me impossível (apesar das muitas tentativas) fazer cumprir todo o trajecto inicialmente proposto. Refiro-me por exemplo ao primeiro contacto com o track do Trasportugal que está presente a partir de Sabóia. Depois, foi uma alteração por vontade própria, já que em vez de ir dar a Sagres, passei a ter como intenção, terminar tal périplo por Lagos. Além de querer relembrar a Ecovia do Litoral, queria fazer uma prospecção pela Vila da Luz e pelos locais onde foram dados os derradeiros passos da pequena Meddie.

De uma forma geral, esta “colagem”, como o próprio Froids lhe chamou, está espectacular. Dá-nos uma ideia bastante abrangente do que se pode encontrar a Sul do Sado, quando é de BTT que falamos. Atravessa uma boa parte do SW Alentejano e do Algarve Vicentino. Sempre próximo, ou, mesmo dentro do Parque Natural com o mesmo nome.


Após a saída de Tróia (agora os barcos atracam quase em Soltróia), e até à Comporta, onde tomei o meu segundo pequeno-almoço, o traçado é em asfalto. São cerca de 12,5 km’s em que realmente não existem alternativas viáveis à progressão. Por esta península só conheço areal e pântano.


A entrada para os arrozais faz-se atrás do museu do arroz. A partir daqui evolui-se por uma longa recta “suspensa” e ladeada de tais culturas, que se desenvolve por alguns quilómetros, até ao Carvalhal. Guiado pelas cegonhas e demais aves madrugadoras que bicam nos espelhos de água em busca de “pasto”. Os índices de água nos campos dá-nos a indicação do que nos espera daqui para a frente. Os níveis de absorção dos solos estão por esta altura, elevados ao limite.



Primeiro ainda temos alguns quilómetros em que por muito boa vontade que tenhamos, não nos conseguimos livrar do alcatrão. Chegados a Melides, é por esta Vila que se inicia o puro BTT. Daí, e até à minha primeira paragem para dormir, aconteceram mais de 50 km´s de motivante pedalar pelos montes abandonados ou reocupados, do Alentejo de casas caiadas com as janelas e as portas debruadas maioritariamente a azul. Essa, também era a cor reinante pelos céus, que apesar de serem de Janeiro, não nos traziam mais do que algum frio.



Aos poucos ia-mos deixando o contacto visual com o mar, entrando em vastos campos de sobreiros e azinheiras, salpicados aqui e ali por eucaliptos e pinheiros que se faziam acompanhar por longos e muito técnicos, bancos de areia. Foi serpenteando pelas pequenas poças e grandes lagoas, que as chuvas da época alimentaram, que se consegue progredir. Nestes dias não avistei uma única ribeira que estivesse serena e dentro do caudal habitual. – As águas fluíam a velocidades vertiginosas.




Sempre que descíamos em direcção a um vale por entre arvoredo, sentindo a presença da água nas suas profundezas, desde logo começávamos a imaginar como é que estaria a ribeira e como a poderíamos passar. Muitas delas tiveram que ser transpostas com os pés lá dentro. Apesar de tudo era a forma de causarmos menos dano.
Foi assim, e após um almoço frugal mas caseiro no “Costa” de Sta Cruz que passei ao largo de Sines. Avistando as suas chaminés sempre que subia a mais um monte.


Até às imediações do Cercal, local escolhido para a pernoita, ainda contornei a barragem de Morgavel, onde por lapso meu, tive que andar a saltar redes e a fazer corta mato.
Parei já bem perto das 17 horas, num local próximo ao que me era indicado pela marca: - Dormida 1B. O primeiro dia estava feito. Já tinha cumprido mais de 100 km’s, era hora de descansar um pouco.


O Segundo, diferente, não foi menos belo, antes foi menos controlado.


Segui as instruções GPSianas até Viradouro. Depois, e pelas razões anteriormente focadas tive que adaptar de certa maneira este meu 2º dia de progressão em direcção ao Sul. Calculava à partida que a jornada fosse bastante acidentada no que ao relevo e respectivas altimetrias dizia respeito. Se no 1º dia fiz qualquer coisa como 1300 mt de acumulado, neste, contava passar dos 1500 mt.


Monte acima, monte abaixo, mais lama ou menos areia, foi assim que cheguei até ao Corgo, superando o marco dos 27 mil quilómetros do meu manómetro. A paragem para o “já” obrigatório 2º pequeno-almoço foi feita em Vila Bejinha, onde ao cheiro do alho que se descascava para a açorda, comi umas belíssimas torradas de pão alentejano. Daqui até Odemira tudo se passou num ápice. Aliado ao declive descendente tivemos o regresso do asfalto.


A verdadeira “Ode” ao Mira, dá-se após a passagem por esta cidade do Baixo Alentejo, num troço de autêntico catálogo turístico, em que a presença do rio se faz notar até Sabóia. Refira-se que tal curso nervoso, está por esta época, muito além do seu caudal, o que torna a circulação por tal pista um “mar” de improvisos. Especialmente no Vau. Por estas bandas fui literalmente ultrapassado por uma cidadã estrangeira que comunicava perfeitamente na língua de Camões. Soube por ela que tal acompanhamento fluvial se estendia por quase 30 km´s. O ritmo da “kamone” e o meu peso adicional produzido pelos alforges e afins não me deixou alternativa senão deixá-la ir, ficando para trás com facilidade.


É então em Sabóia que se dá a viragem da agulha, rumando novamente ao SW alentejano, que por esta altura se apresentava coberto de um verde flamejante, onde os animais se deliciavam e exercitavam as mandíbulas. A constatação desta realidade é por demais evidente quando comparada com a moldura habitual por estas terras, que após os meses de inverno começa a adquirir aquela cor característica, de aridez e secura. Qualquer coisa como uns castanhos avermelhados.


Continuemos. Por erro meu, mas também por ter lido uma indicação no GPS que realmente não existia no terreno (aliás, o mesmo aconteceu com o Froids), fui levado a seguir sem parar em Sabóia, pensando haver um café umas centenas de metros mais à frente. Como a fome apertava, tinha intenção de parar para comer algo substancial, mas tive que adiar tal intento por não haver local para o fazer. Perguntei a umas senhoras por essa possibilidade, ao que me foi indicado uma aldeola uns quilómetros mais à frente. O que eu não sabia era que passadas poucas centenas de metros iria abandonar a estrada para dar entrada num pedaço de traçado montanhoso sem qualquer referência de comida. É um erro quase primário para quem anda nisto das bikes com alforges por esse “mundo” fora, há tanto tempo. Com a chegada da fome o raciocínio escasseia. Então se aliarmos tal facto à dificuldade natural do traçado (comum ao duro Transportugal), aí é que nos surge com naturalidade o empeno.


Foi com uma falta notória de nutrientes que andei a passar inúmeras vezes com a bicicleta à mão ou às costas por dentro de uma ribeira que neste troço serpenteia consecutivamente o trilho. Como o nível das águas era muito superior ao normal, passou a ser uma “luta” desigual que tinha que travar de lés-a-lés com a água. Além da fome e do cansaço tinha as dificuldades expostas para transpor. Acabei por tomar uma decisão sensata, ao abortar aquele pedaço do traçado e voltar à estrada em busca de algum sítio onde pudesse comer e retemperar algumas energias que me seriam indispensáveis para concluir a restante etapa.
Acabei por parar numa bomba de gasolina rural onde por especial favor consegui comer umas batatas fritas de pacote e um chocolate, que apesar de tudo me restabeleceram algumas calorias perdidas. Teria agora que reequacionar o final da etapa, que pela mudança que se adivinhava no céu e o respectivo entardecer, não poderia durar muito mais do que uma hora. Acabei por voltar a subir até São Teotónio, par aí poder descansar algo, e repegar com o traçado que me guiava, no dia seguinte. Apesar de tudo, já tinham passado mais de 110 km’s.


O 3º dia talvez tenha sido o mais complicado, mas ao mesmo tempo o mais interessante. Saído de São Teotónio dirigi-me para Odeceixe. Aí, escolhi o caminho da praia e subindo a falésia, voltei a tomar contacto visual com o mar. Acabei por evoluir um pouco à descoberta, pela areia, voltando à estrada rural que me levaria até Maria Vinagre.



Depois da 2ª parte do repasto matinal, em Rogil. Avancei em busca de Aljezur para recolar com o track que tinha no GPS. Foi dessa maneira que fiz a escalada até ao Castelo, donde se tem uma vista privilegiada até à serra de Monchique.



A partir da Carrapateira seguiram-se várias visitas até às praias com o que isso acarreta de sobe e desce, mas onde tive o prazer de conhecer trilhos completamente novos para mim. Alguns roçando um pouco o radical, em que a bicicleta tinha que evoluir á mão, pé ante pé por entre as pedras soltas da alta escarpa.







Por não querer seguir o troço final, rumo a sagres, pois já o conhecia de aventuras anteriores, tomei a direcção de Vila do Bispo, e de lá, fazer a Ecovia do Litoral que por agora, se estende até aos limites do Parque Natural e do Concelho de Vila do Bispo, mais precisamente em Burgau.



Acabei por chegar à Vila da Luz ainda a tempo de pôr os olhos pelos locais frequentados pela pequena Meddie antes de desaparecer. Não quis deixar passar em branco a possibilidade de relembrar alguns dos acontecimentos daquela noite de Maio de 2007, aproveitando para tentar comprovar “in loco” alguns factos relatados no livro de Gonçalo Amaral: - “A Verdade da mentira”
Mais elucidado e documentado, mas ou mesmo tempo um pouco mais revoltado com toda aquela memória que relembra uma inocente criança, que por motivos ainda desconhecidos desapareceu, fiz a abordagem a Lagos, onde acabei por concluir esta minha viagem “às voltas pelo Sul”.

Guarda Rios ou... João das Ribeiras

3 comentários:

jabas disse...

qq dia, a fazer zapping, encontro-te no canal discovery com o Bear Grylls a ensinar a sobreviver nos locais mais inóspitos do planeta (lol)

João Galvão e Ricardo Rosa disse...

F A R T E I - M E D E R I R !!!

LOL
LOL
LOL

Frederico Nunes disse...

Muitos parabéns pela concretização da aventura!
Imagino perfeitamente pelo que passaste...
:)

Um bem haja pela atitude!

Abraços com mta pedalada,
Fred.Nunes AKA Froids